sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Um carpete verde-oliva, um livro aberto e pote de sorvete. 22:47 da sexta-feira, me bate uma vontade de pedalar na orla. Penso em chamar o Marvin, mas lembro que ele anda tão exausto com esse trabalho novo. Apelo para o bolinha. Ele me olha de canto, meio se espreguiçando e diz que já tava indo dormir, mas se rolar um sorvetinho pode até pensar no meu caso. Cachorro oportunista. Ainda pensei em bater no 9379 quando passei em frente, mas resolvi ir sozinha mesmo. Sozinha nada, reclama Bolinha, e eu? Damos algumas voltas na rua, o bastante para ver o céu estrelado, mesmo poluído, é tão bonito. Quase não há carros na rua, então deixo bolinha ir na frente, gosto de ficar observando os movimentos dele, vendo o pelo amarelado refletir a luz da lua. Engraçado, é como se a gente se conhecesse a anos. Meu irmão o encontrou na rua duas semanas atrás com marcas de maus tratos, tem gente que acha que animal é de polietileno, que feio é só roubar descaradamente e sonegar imposto. Meu pai disse que algumas pessoas que criam cachorros os abandonam quando eles chegam nessa idade. As vezes os olhos dele parecem tristes... As pessoas são medíocres mesmo, chego a conclusão. Passo no fast food e compro um expresso de baunilha. Bolinha me olha com uma cara de cachorro e se anima todo. Lá embaixo, perto do rio tem uma parede de concreto grande onde sempre sento para ver o pôr-do-sol, ficamos lá recostados por um tempo, olhando o movimento da água e o barulho do vento. Tinha um rapaz limpando o carro de um senhor que parecia estar com insônia, parecia satisfeito apesar do horário. Me deixou feliz. Lembrei da senhora que sentou comigo no ônibus ontem na volta da universidade, dizendo que o dinheiro público deveria ser investido apenas em pessoas com futuro promissor, que o resto apenas sobrecarrega o sistema. As pessoas banalizam os sonhos alheios. E eu me sinto bem em ser imune a pelo menos essa espécie de estupidez. Retornamos pelo mesmo caminho. Bolinha me carrega por um longo trecho, me deixo imergir na embriaguês da insanidade... Eu não quero ser sã e melhor que os outros. Quero essa calmaria sem sentido e essa paz envolvente, é tão bom ter tudo e nada ao mesmo tempo...

14 comentários:

Felipe Santos disse...

...quero essa calmaria sem sentido e essa paz envolvente, é tão bom ter tudo e nada ao mesmo tempo...

É bom viver às vezes, é bom não saber pra onde se vai.. .é bom apenas seguir ou não. (confuso)

BELO TEXTO.


KISSES AND HUGS

Barbara disse...

O olhar de um cão e um sorvete.
O som , o ar, o por do sol.
Isso é tudo sim.
Melhor que isso, só uma boa espreguiçada com a sensação de que não temos verdade alguma a dar ou a vender e que a relatividade trabalha prá nós.
Gostei de vir passear contigo. E com o Bolinha.

Andarilho disse...

Obrigado. Eu precisava ler algo assim.

Gutor disse...

Muito bomm...

Eu ia destacar o mesmo trecho que Felipe citou... Muito bom mesmo.

É interessante quando escrevemos sobre o Nada, parece ser muito mais grandioso do que quando escrevemos sobre coisas ditas grandiosas. O Nada é tão poético.

Abraços,
Peace, Love and Empathy!

Eduard disse...

Pude te imaginar agora fazendo cada um desses movimentos,

tão real...

Demais Bells, como sempre demais!

Mr_P disse...

Hummmm
O texto tá tão delicioso quanto o sorvete...

Bom ver que vc ta bem..
Beijo.

Lily Quel disse...

Falar sobre o nada é realmente mais poético, mas só quando se sabe retratá-lo...tá fodástico Josy!!! Até me simpatizei pelos cachorros que considero submissos!!

"Peace, love and empathy"

Andarilho disse...

Respondendo seu comentário:

Hoje li uma notícia com um timing perfeito. Sua Santidade, o Papa, afirmou ser responsabilidade da Igreja interpretar a Bíblia. Ou seja, o que a Igreja entender é o oficial.

Não tenho nada contra outras religiões, acho que todos podem, e devem, acreditar naquilo que quiserem. Mas não custa usar um pouco a cabeça...

A Magia da Noite disse...

por vezes é o vazio que nos preenche.

Germano Xavier disse...

Josy,

não sabia que tu moravas em Petrolina. Vi tuas fotos no orkut. Para mim você era de Recife.

Coisa boa!

Sigamos...

Ric Dexter disse...

Viajei mesmo nessa leitura...

Beijos procê, Josy!

Letras da Pâmela disse...

"Quero essa calmaria sem sentido e essa paz envolvente, é tão bom ter tudo e nada ao mesmo tempo..."

Adorei seu texto.... e também o "Bolinha"... rs.

Acho que no lugar dele talvez eu fizesse a mesma barganha com o sorvetinho de baunilha.

Beijos, deixei selo pra você em meu blog.
Saudades daqui.

Germano Xavier disse...

Nunca te vi, Josy. Ou melhor, certamente já te vi, mas não sabia que era você.

Carinho.
Continuemos...

Bernard disse...

Bastante ausente dos seus texto,(e meus também). Deixei de postar por um bom tempo, as idéias demoram a vir, o tempo atrapalha um pouco. Mas conseguimos escrever dependendo da situação ou dos sentimentos.
Deixei um comentário, só para da uma presença de passagem rápida.

Até. (sequiseres falar sobre o seu texto).