segunda-feira, 1 de junho de 2009

Jude [5]

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- Tudo bem Jude, sério... Que tal uma revanche?
- Claro Marv, - rebati mostrando o sorriso pensativo e... mecânico. O Marvin tinha o dom de quebrar o gelo e eu o invejava. Talvez quizesse um pouco disso ao invés desse silêncio todo que brota de mim em algumas situações. Relutante, pego um peão e movo, como se estivesse me movendo naquele tabuado bicolor.

Aquele era só mais um dia qualquer, quente como hoje, em um bus qualquer, lotado de pessoas que iam e vinham. E eu era só mais uma delas, na mesma janela de sempre, com uma pilha de livros e um pacote de Doritos, olhando os outros estudantes que assim como eu voltavam para casa. Esperando que as nuvens enfim ficassem amenas e mostrassem um pouco as estrelas.
Ele subiu dois pontos depois e se sentou no degrau, mesmo com tantos lugares vazios. E olhou para meus pés. Não pude deixar de notar suas mãos, não porque elas fossem magras e frias, nem pela caixa de madeira que vejo diariamente, mas pelas hawaianas quebradas, que se moviam em um balançar frustrado. E o olhar. As vezes o olhar das pessoas tem um poder esmagante.
Pode ser paranoia minha, mas as vezes eu sonho com isso. E sempre acordo me achando um lixo, o que não é completamente mentira.
Tenho pensado nisso. Nessa nossa incapacidade tão promíscua. Volta e meia me pego tentando imaginar como cada um encara o seu pedaço de inutilidade. Entorpecidos na própria hipocrisia. Penso nas pessoas e suas fardas de calça preta apertada e blusa branca, e nos escritórios tediosos. Vendedores, recebedores de contas, motoristas de bus, todos eles me vem a memória agora. E fins de tarde apressados onde um céu muito laranja passa despercebido. Lembro também da senhora simpática que vendia hot dog na porta do colégio da minha infância. Todos eles parecem pequenas formigas construindo um castelo, uns com caras amarradas, outros com sorisos amarelos. Deve ser essa a diferença. A forma como cada um encara as coisas.
-Professora, é verdade que a gente é o que escolhe ser? Agora tenho certeza disso.
Aulas de botância me deixam paranóicas, me fazem lembrar dos projetos que tenho de entregar e provas de cálculo e física experimental. Me dá vontade de pegar a Florisbela e fugir. Vejo tudo tão mesquinho. Marvin me chama de Maria Louca.
Agora quando lembro do menino me lembro também de um livro que li na semana passada, do gânster que mutilava as crianças para que elas pudessem pedir moedas nos sinais ou nos metrôs. Marvin me arrasta para ver um filme. Relutante eu vou. A gente revê Clube da Luta. Tyler me lembra uma parte das pessoas que não fica à mostra. Como nas fotografias que outrora tiro de pessoas na rua, no bus... Tenho agido assim sem querer. Judas, o obscuro tem despetado meu lado obscuro e amargo.

Dessa vez é Marvin que está quase dormindo. já passa de 01:00 pm. Não sei se ele entendeu bem, mas sei que ouviu tudo. Um vira-lata branco passa embaixo da sacada e tenho vontade de lhe fazer um carinho. Gosto desses cães de rua. Sinto que eles gostam de mim também. Levo Marvin para o quarto, vejo o 'Paris era ontem' de Ariano na sua cabeçeira. Lembro da vontade de conhecer Paris. Pego as peças do chess e arrumo na estante. Ainda penso no filme e na nossa luta individual com a outra parte de nós mesmos. Se eu fosse escolher alguém para lutar acho que não saberia quem escolher. Apago a luz e coloco um disco aleatório. Muse canta Supermassive Black Hole. É uma boa música para se dormir pensando.

10 comentários:

Eduard disse...

Por Ford Bella,

Amarga?
A June é doce.
O mundo é que as vezes nos torna apreensivos e metódicos.

Demorou dessa vez. Fico aguardando mais.
Boas provas, imagino que assim como eu você tenha muitas delas daqui para o fim do período.

Engenharia é fogo.

Judith disse...

Viva! É sempre bom tê-la de volta.
Quanto à paranóia, não julgue que isso seja exclusividade sua. Todos tem suas paranóias particulares. A diferença é que a maioria tem medo de externá-las e preferem guardá-las para si. Medo de serem rotulados, talvez. Vá saber...
Sim, somos meio parecidas. E gosto disso. :P
Boa sorte nas provas. E não suma.

Keep up the hard work! ;)

Beijocas!

Fofa disse...
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Fofa disse...

Hahahahah!

Que bom!
Seja muito bem vinda e volte sempre!

Eu virei com mais calma xeretar o seu cantinho!

Beijocas

~*Rebeca e Jota Cê *~ disse...

Então, Josy, continue passando por lá! hahahahaha

E nessa partida, quem foi que ganhou?

Jota Cê

Daniel "Amarelo" disse...

Olha, às vezes também tento lutar contra "eus" que eu tenho, e é tão difícil separar um do outro, que nem sei qual sou (ou estou) hoje.

"A maior luta do ser humano, é lutar contra si próprio"

Não lembro quem criou isso, haha, acho que vi em um blog certa vez.

Gostei muito da parte "Sorriso AMARELO"

kkk
Muito bom!!!

Germano Xavier disse...

Por trás dessa atmosfera pop, um moral há de cair diante dos teus olhos e dedos iconoclastas, Josy.

Gosto daqui.

Um carinho.
Sigamos...

O Profeta disse...

Mil caminhos
Esta viagem sem velas nem vento
Este barco na bolina das ondas
Esta chuva miúda transborda sentimento

Amarras prendem o gesto
Arrocham um coração que bate incerto
Uma gaivota retoca as penas com espuma
Levanta voo em rumo concreto

Partilha comigo “100 Anos de Ilusão”


Mágico beijo

Andarilho disse...

Como sempre, estupendo. Adoro como as reflexões cotidianas da "Jude" nos mostram os contrastes dessa existência.

E gosto mais ainda de ver como ela sempre caminha para o bem, indignando-se com o que há de ruim em todas as suas formas.

Judith disse...

Eita que ja fugiu na florisbela. Tsc... tsc.. tsc...
Beijos, menina doce.
Bom fim de semana!