terça-feira, 21 de julho de 2009

Ainda sobre férias e coisas repentinas

- Você e essa maldita pessa e viver! Não vejo necessidade em se dirigir a 180, - resmungava o Marvin equanto, desesperadamente, tentava focar o pôr-so-sol deslumbrante que nos seguia janela a fora. With you were here, sussurrava o Roger Waters. Engraçado como gosto dessa voz me acompanhando nos melhores momentos. A velha caminhonete vermelha deixava para trás o que nem as mais precisas câmeras são capazes de focar, um pouco de nós. E assim iamos seguindo na imensa rodovia, em meio a conversas e muita pressa. Sempre preferi as motos, elas me dão mais liberdade, sem falar na sensação maravilhosa do vento balançando o cabelo e soprando a nuca. Me deixa mais viva. Mas, uma vantagem das quatro rodas é a possibilidade de se conversar, e eu tenho um verdadero tesão por uma boa conversa. Uma boa fogueira, rodeada de bons amigos. Pensei na Florisbela largada naquele quintal. Pensei também no Jude, largado naquela maldita poltrona, assistindo aquela maldta tv e batendo naquelas malditas teclas. Tão caótica a imagem se formando na minha cabeça. Eu dava graças a Deus por aquelas rodovias em minha vida. Eu que não sei ficar parada muito tempo no mesmo lugar, agora mais que nunca, me sinto indo embora de repente. Uma parte de mim, pelo menos, aquela que via a realidade de forma virgem demais. Decidi apenas viver, e me sinto tão aberta quanto meus poros distônicos. As montanhas passavam exibindo suas formas estranhas, enquanto eu também exibia as minhas 'estranhezas' e minha afeição por coisas estranhas, que parece tão infinita quanto as rodovias. Não sei porque isso me remete a conversas frias e monólogas mal terminadas. E não quero tentar entender nada agora. Longas dias, longas noites. Eu não quero me importar com isso. Nesse momento eu só quero 'me' ver, porque tenho a impressão que tenho me deixado oculta nos ultimos tempos. Liberdade é acordar e perceber que não existe mais nada exercendo uma força estranha sobre você. 'Espera que o tempo logo passa', diria tia Lia. Num início de noite ainda claro de inverno, Marvin me segue até a varanda com as mochilas e colchonetes, ainda há alguns pombos lá embaixo, no chão gelado da praça. Quando criança adorávamos descer e alimentá-los, e atirar pedrinhas no lago frio e escuro. Tia Lia dizia para brincarmos com as pessoas, porque os pombos traziam doenças. Se ela pudesse me ver hoje, acho que diria para brincar mais com os pombos e menos com os humanos. Poucas pessoas ainda estavam na rua, durante o inverno a paisagem fria costuma repeli-las. Gosto de ficar até tarde na varanda jogando chess e conversando, as vezes uns amigos do Marvin também vêm, ainda estou de férias da escola. Uma menina gótica me lembra a namorada louca do Jude, que bebe o suco de laranja direto da garrafa e fala um pouco de asneiras. Penso que ele deve sentir falta de conversas maduras ás vezes. Me sinto um pouco egoísta por pensar isso. Também não quero abrir mão desse momento, quem sabe um dia eu mude de ideia, sobre isso e sobre casamento, filhos e as pequenas coisas medíocres. Ozzy Ousborne tem Lulus da Pomerânia, dizia o amigo grandão que não jogava nada. Marvin tá me devendo uma. Já era tarde quando foram embora. Me sinto tão perdida no meio de tudo isso, as vezes tenho a impressão que nem sou desse mundo. Não sei exatamente porque mas pensei em Júlio César, o imperador. Ainda preservo um pouco de uma mania muito antiga de tentar entender a mente das pessoas. Talvez isso não seja mesmo bom. Marvin vive a dizer que a Maria Louca é engenheira e não psicóloga. São duas da manhã, me deito ali mesmo na varanda, me sinto tão entorpecida... há vida em cada um dos meus poros. É estranha essa sensação de felicidade que nos invade as vezes. Marvin começa a falar na peça do Ariano que entrou em cartaz que precisamos assistir. E sobre cinemas lotados pelos adoradores de Harry Potter, aquela porcaria. Penso na matícula das universidades e no pôr-do-sol de ontem a tarde. - Tudo bem com você Jude? Jude não respodeu. Ela não sabia.

terça-feira, 14 de julho de 2009

CRÍTICA DE ARIANO SUASSUNA SOBRE O FORRÓ ATUAL
(Não é a toa que admiro tanto esse cara)
Tem rapariga aí? Se tem levante a mão!'. A maioria, as moças, levanta amão. Diante de uma platéia de milhares de pessoas, quase todas muitojovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda que se diz de forró, utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, e todas bandas do gênero). As outras são 'gaia', 'cabaré', e bebida em geral, com ênfase na cachaça. Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam). Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade. - O secretário de cultura Ariano Suassuna foi bastante criticado, numa aula-espetáculo, no ano passado, por ter malhado uma música da Banda Calipso, que ele achava (deve continuar achando, claro) de mau gosto. Vai daí que mostraram a ele algumas letras das bandas de 'forró', e Ariano exclamou: 'Eita que é pior do que eu pensava'. Do que ele, e muito mais gente jamais imaginou. -Pra uma matéria que escrevi no São João passado baixei algumas músicas bem representativas destas bandas. Não vou nem citar letras, porque este jornal é visto por leitores virtuais de família. Mas me arrisco a dizer alguns títulos, vamos lá: Calcinha no chão (Caviar com Rapadura), Zé Priquito (Duquinha), Fiel à putaria (Felipão Forró Moral), Chefe do puteiro (Aviões do forró), Mulher roleira (Saia Rodada), Mulher roleira a resposta (Forró Real), Chico Rola (Bonde do Forró), Banho de língua (Solteirões do Forró), Vou dá-lhe de cano de ferro (Forró Chacal), Dinheiro na mão, calcinha no chão (Saia Rodada), Sou viciado em putaria (Ferro na Boneca), Abre as pernas e dê uma sentadinha (Gaviõesdo forró), Tapa na cara, puxão no cabelo (Swing do forró). Esta é uma pequeníssima lista do repertório das bandas. Porém o culpado desta 'desculhambação' não é culpa exatamente dasbandas, ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo. O buraco é mais embaixo. E aí faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando-se. Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do tresloucado Slobodan Milosevic surgiu o turbo folk, mistura de pop, com música regional sérvia e oriental. As estrelas da turbo folk vestiam-se como se vestem as vocalistas das bandas de 'forró', parafraseando Luiz Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias e shorts começavam muito tarde. Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor doCentro de Estudos alternativos de Belgrado, Milan Nikolic, afirmou em 2003 que o regime Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o primitivismo estético. Pior, o glamour, a facilidade estética, pegou em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo. Aqui o que se autodenomina 'forró estilizado' continua de vento em popa. Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiais juninos do Nordeste, sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável e merecedor de maior atenção. Quando um vocalista de uma banda de música popular em plena praça pública de uma grande cidade com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem 'rapariga na platéia', alguma coisa está fora de ordem. Quando canta uma canção (canção?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é 'É vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!', alguma coisa está muito doente. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vaitomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos.
Ariano Suassuna.

Tá dito. E eu assino embaixo!

quinta-feira, 2 de julho de 2009



Volta e meia me perguntam sobre a transposição e seus efeitos explosivos. Ainda me pego pensando em como as pessoas vêem certas coisas, afinal estamos tão acostumados a crer fielmente nas mentiras que a televisão inventa. Coisas sobre grandes feitos, progresso, tecnologia, hipermetropia... Incrível muitos ainda nem saberem que estamos diante do maior projeto da engenharia em execução no momento. E que está acontecendo bem aqui ao nosso lado, na Caatinga pobre. Mas a televisão não pode mostrar esse tipo de coisa... Afinal, o que é um monte de galhos secos? Essa semana em uma das expedições científicas da universidade, para pesquisa e coleta de germoplasma vi a obra em um de seus eixos, parte que vai desde Salgueiro-PE até Mauriti-CE. É de uma dimensão inimaginável. Uma coisa bruta, forte, devoradora. E essas nem são as únicas coisas que o povo é privado. A todo momento surgem novidades, suspensão de pesquisa, projetos de lei que aprovem a poligamia. É tudo tão ingênuo e hipócrita. Como um despertar de tolos frente a um mundo admirável. Tudo tão normal. E como Oscar Wilde disse, normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.

Then I fly back to my rest
I fly back with my nuclear
But everything is different
(Alanis Morissete - Citizen of the planet)