Ainda sobre férias e coisas repentinas
- Você e essa maldita pessa e viver! Não vejo necessidade em se dirigir a 180, - resmungava o Marvin equanto, desesperadamente, tentava focar o pôr-so-sol deslumbrante que nos seguia janela a fora. With you were here, sussurrava o Roger Waters. Engraçado como gosto dessa voz me acompanhando nos melhores momentos. A velha caminhonete vermelha deixava para trás o que nem as mais precisas câmeras são capazes de focar, um pouco de nós. E assim iamos seguindo na imensa rodovia, em meio a conversas e muita pressa. Sempre preferi as motos, elas me dão mais liberdade, sem falar na sensação maravilhosa do vento balançando o cabelo e soprando a nuca. Me deixa mais viva. Mas, uma vantagem das quatro rodas é a possibilidade de se conversar, e eu tenho um verdadero tesão por uma boa conversa. Uma boa fogueira, rodeada de bons amigos. Pensei na Florisbela largada naquele quintal. Pensei também no Jude, largado naquela maldita poltrona, assistindo aquela maldta tv e batendo naquelas malditas teclas. Tão caótica a imagem se formando na minha cabeça. Eu dava graças a Deus por aquelas rodovias em minha vida. Eu que não sei ficar parada muito tempo no mesmo lugar, agora mais que nunca, me sinto indo embora de repente. Uma parte de mim, pelo menos, aquela que via a realidade de forma virgem demais. Decidi apenas viver, e me sinto tão aberta quanto meus poros distônicos. As montanhas passavam exibindo suas formas estranhas, enquanto eu também exibia as minhas 'estranhezas' e minha afeição por coisas estranhas, que parece tão infinita quanto as rodovias. Não sei porque isso me remete a conversas frias e monólogas mal terminadas. E não quero tentar entender nada agora. Longas dias, longas noites. Eu não quero me importar com isso. Nesse momento eu só quero 'me' ver, porque tenho a impressão que tenho me deixado oculta nos ultimos tempos. Liberdade é acordar e perceber que não existe mais nada exercendo uma força estranha sobre você. 'Espera que o tempo logo passa', diria tia Lia. Num início de noite ainda claro de inverno, Marvin me segue até a varanda com as mochilas e colchonetes, ainda há alguns pombos lá embaixo, no chão gelado da praça. Quando criança adorávamos descer e alimentá-los, e atirar pedrinhas no lago frio e escuro. Tia Lia dizia para brincarmos com as pessoas, porque os pombos traziam doenças. Se ela pudesse me ver hoje, acho que diria para brincar mais com os pombos e menos com os humanos. Poucas pessoas ainda estavam na rua, durante o inverno a paisagem fria costuma repeli-las. Gosto de ficar até tarde na varanda jogando chess e conversando, as vezes uns amigos do Marvin também vêm, ainda estou de férias da escola. Uma menina gótica me lembra a namorada louca do Jude, que bebe o suco de laranja direto da garrafa e fala um pouco de asneiras. Penso que ele deve sentir falta de conversas maduras ás vezes. Me sinto um pouco egoísta por pensar isso. Também não quero abrir mão desse momento, quem sabe um dia eu mude de ideia, sobre isso e sobre casamento, filhos e as pequenas coisas medíocres. Ozzy Ousborne tem Lulus da Pomerânia, dizia o amigo grandão que não jogava nada. Marvin tá me devendo uma. Já era tarde quando foram embora. Me sinto tão perdida no meio de tudo isso, as vezes tenho a impressão que nem sou desse mundo. Não sei exatamente porque mas pensei em Júlio César, o imperador. Ainda preservo um pouco de uma mania muito antiga de tentar entender a mente das pessoas. Talvez isso não seja mesmo bom. Marvin vive a dizer que a Maria Louca é engenheira e não psicóloga. São duas da manhã, me deito ali mesmo na varanda, me sinto tão entorpecida... há vida em cada um dos meus poros. É estranha essa sensação de felicidade que nos invade as vezes. Marvin começa a falar na peça do Ariano que entrou em cartaz que precisamos assistir. E sobre cinemas lotados pelos adoradores de Harry Potter, aquela porcaria. Penso na matícula das universidades e no pôr-do-sol de ontem a tarde. - Tudo bem com você Jude? Jude não respodeu. Ela não sabia.
