domingo, 28 de junho de 2009

Sobre inverno, tédio e férias

Estava em casa assistindo o jornal essa semana quando ouvi alguma coisa sobre o tédio provocado pelas férias. A verdade é que estou tão desacostumada a ficar em casa que mesmo o estágio que me tira de casa por dias não é capaz de diminuir minha asfixia. Deve ser homefobia. Automaticamente me lembrei de um texto que vi em um blog, falava sobre normose, uma palavra inventada por um professor de 86 anos que também achei muito procedente. Ele disse que o ser humano está sofrendo de normose, a doença de ser normal. Todo mundo querendo se encaixar em um padrão. Bem, pelo menos dessa estou livre, pensei...
Como a falta do que fazer remete as mesmices, encontrei esse texto meu que postei no simplicíssimo há um tempo, quando sobrevivia ao tédio dos escrítórios...

"Da velha cadeira, no velho escritório, batendo nas mesmas teclas do computador que não era DELL.
O tempo está se desintegrando gradualmente.
O horário dos ônibus cada vez mais desregulado. Mesmo assim, ainda há quem transforme os problemas em uma Roma particular e incendeie tudo. Só que memórias são resistentes e permanecem queimando por um longo tempo.
As musicas são ótimas distrações quando se tem que andar em meio ao tédio, mesmo assim, ninguém está livre do sentimento de inutilidade quando se anda na rua, onde as desgraças são expostas em uma enorme vitrine.
Há quem trabalhe o dia inteiro e a noite ainda vá para a faculdade.
Há também quem prefira não fazer nenhum dos dois.
As novidades que os pesquisadores descobrem nem sempre são animadoras.
Os catadores de lixo estão ganhando espaço, há cada vez mais trabalho para eles.
Há outras leis, outras marcas famosas, outras modelos ganhando milhões.
Há muitas coisas boas, como coca-cola e um bom documentário no fim do dia.
Os pais ensinam aos filhos que o mundo já não serve, que é melhor ficar de fora,
mesmo assim, alguns até ainda têm sonhos, só que eles se tornam cada vez mais impossíveis.
Os jornais estão bem mais eficientes, mesmo que as noticias não sejam sempre agradáveis.
Há pessoas simpáticas e agradáveis. E crueis. E elas têm um grande poder sobre nós.
Deveríamos nos manter longe.
Mas a maioria do tempo vivemos para os outros."

In unbroken virgin realities is tired of living. (Plug in baby - Muse)

sábado, 20 de junho de 2009

I like the sea

Gosto do mar.
Gosto do sweater de mangas na preguiça do domingo. Do restinho de sol no fim da tarde. Gosto dos dias chuvosos, dos dias ensolarados, do céu cinza. Gosto do all star rasgado que todo mundo repara, do cheiro do café derramado, da voz que reclama em seguida. Gosto do cabelo caindo no olho, de sentir os grãos de areia sob o pé, do movimento das ondas se quebrando nos paredões de pedra, do céu azul...
Gosto de inventar palavras, de falar sozinha, do inglês mal pensado, bem escrito. Do Marvin perguntando "What the Fuck?" Gosto das caminhadas no calçadão, do hey you do Pink Floyd, dos gatos de rua que aparecem no quintal para comer presunto e conversar, dos vira-latas sarnentos que me seguem e dá vontade de levar para casa. Gosto do pacote de Doritos de duzentos gramas, das mãos que dividem o pacote. Gosto do barulho da motocicleta velha, da conversa no fundo do bus que é quase sempre o último a passar, do chuvisco que pega de surpresa, do disco arranhado dos Melvins. Gosto camiseta desbotada, do horizonte alaranjado, do telefone que toca na insonia da madrugada, do chocolate esquecido na gaveta, da voz suave do Kurt. Gosto dos amigos encontrados ao acaso depois de muito tempo sem ver, da janela do lado do cobrador, da caneta tinteiro herança da avó. Gosto dos bilhetes da oitava série, das palavras sem rimas, das páginas de cálculos intermináveis. Gosto do anonimato, dos comentários anônimos, da seriedade, do bem que a ciência faz, da botânica. Gosto do calendário rabiscado, da rotina sufocante, da universidade nos fins de semana, dos não feriados, sem nehum pesar. Gosto da coca-cola no calorão, do almoço de mãe, do lençol grosso, da carona no momento mais inesperado. Gosto da música no escuro, da música em todos os momentos, do calor ameno, da serra alta. Gosto do capuccino apostado, do chess perdido, de caminhar sem rumo, do livro que faz perder a hora, esquecer do tempo... Gosto da inspiração no meio da noite, de não precisar de despertador, da carta que chega de surpresa, de fazer visita sem avisar. Gosto do violão nos corredores da faculdade, dos vinis empoeirados, da musica antiga lembrada as pressas. Gosto de tudo isso, like very, very much e talvez do que eu mais goste seja desse gostar torto e sem limite, que supõe meus próprios limites, que nem eu mesma conheço ou talvez nem tenha. Gosto eu mesma de cria-los, de poder parecer grande, de chegar aonde eu quizer... far far away...

"Hey you,
Não me diga que não há nenhuma esperança
Juntos nós resistimos, separados nós caimos."
[Hey you - Pink Floyd]

sábado, 13 de junho de 2009

Sunbeam

Acordo com as batidas na porta. 6am. Os primeiros raios adentram a janela. Parece agradável. Abro a porta e só então percebo que a música continua rolando. A mesma música de quando fui dormir. "Now it's time for changing and cleansing everything..." diz o Matthew. Como adoro aquela voz.
Marvin me fez acordar mais cedo. Disse que tinha uma surpresa antes das nove. Sábado é dia do club da árvore. Desde os onze anos nos reunimos pontualmente nesse horário. A idéia surgiu no colegial, quando começaram a discutir nas salas de aula a preocupação com o meio ambiente, o futuro. Eram engraçadas as reuniões de quintal, as camisetas sujas de barro, o bolo de laranja, a coca-cola da garrafa de vidro. Daí veio o tempo e mudou tudo. Poly liga para dizer que não vem, talvez James apareça. É estranho ver as pessoas se perdendo em seus afazeres. Às vezes me pergunto em quais momentos eu também faço isso e sinto falta, muita falta de ver as coisas com olhar de criança. Daquelas que brincam de 'sete-cacos', não essas que desperdiçam a infância com Playstation e games de PC. A inclusão digital não é tão boa assim.
Marvin me arrasta para o quintal que tem duas bicicletas, uma roxa com cestinha. A Florisbela me olha estranho. Essa imagem me remete a um tempo muito bom, onde as coisas eram mais 'inocentes'. Onde a infância se resumia a pitombeiras e tombos de bicicleta. Pegamos uma ruela estreita perto da delicatessen. O cheiro é maravilhoso. Apostamos capuccinos, corremos como se fossem as ultimas magrelas do mundo. Paramos em um parque infantil perto da antiga escola, há algumas crianças empinando pipas e escorregando, um garotinho abraçando a mãe com o cabelo balançando no vento. Sentamos na grama bem aparada, do outro lado, em um banco de cimento, desses doados por estabelecimentos comerciais, políticos em época de campanha, vejo as as mãos do jardineiro eficiente. Posso sentir nos seus olhos a sensação de dever cumprido. Ninguém mais percebe. Do lado tem uma Tabebuia spongiosa que plantamos há uns oito anos. Marvin escreve nossos nomes seguido da inscrição 'a long long time ago..." Lembro do final do livro de Vikas Swarup. Me afeta completamente. Talvez por que não seja 'apenas' ficção. Em algum lugar aquelas coisas acontecem de verdade. Lembro do menino Shanka. E me recuso a crer que a vida seja apenas isto. Tiro algumas fotos, da ávore rabiscada, do jardineiro de olhar bonito, da moça do abraço quentinho.
Na volta quando passamos em frente ao banco têm alguns policiais batendo em um rapaz com um cassetete. Parece que ele furtou uma bolsa. Os gritos são ensurdecedores. Minha mãe disse ter visto a mesma cena na semana passada. "E eles nem tinham certeza do que estavam fazendo," ela disse. Fico puta com esse tipo de injustiça. Lembro de um trecho do mesmo livro. "A literatura está tão distante de Dharavi, como a honestidade da polícia." Iniciamos nossa volta para casa calados. Passamos por mais alguns bancos de cimento. Penso nos políticos e em suas promessas vazias. Me dá ansia.
Os fatos costumam ter um efeito forte sobre algumas pessoas. O sol parece seguir-nos. De repente esse resgate todo do Marvin vem a mim como uma mensagem. A mesma mensagem de que as coisas estão muito erradas. Mas disso todo mundo está absurdamente cansado de saber.
Algumas pessoas caminham rapidamente na mesma calçada, indo para o trabalho, outros levam seus filhos para o colégio, posso ver as expressões acusadoras na face de cada imagem que se segue a cada pedalada, mas no fundo ninguém se preocupa em tentar entender onde se encontra o verdadeiro erro. Afinal de contas, o que é um ser humano? Apenas uma formiga.

sábado, 6 de junho de 2009

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Sexta-feira 9:54 pm, aula de português instrumental:

O camisolão, o jarro, o passarinho, o oceano, a visita na casa que a gente sentava no sofá.
-E ai, que você acha que Andrade quiz dizer com isso?
-Sei lá. O que você acha de:
'A calça jeans, o grafite, a varanda, a pitombeira, a praia onde a gente sentava com céu alaranjado.'
- A camiseta surrada, o muro do quintal, o cheiro de maresia, os vinis antigos, o alfinete...
-O alfinete?
-É para fazer o papel do jarro.
-Ahh, hum...
-E você, o que escreveria?


PS: Saudações ao Oswald, que aprendeu com o filho que a poesia é descoberta das coisas que nunca se viu.

/Créditos da imagem: books.google.com.br/

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Jude [5]

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- Tudo bem Jude, sério... Que tal uma revanche?
- Claro Marv, - rebati mostrando o sorriso pensativo e... mecânico. O Marvin tinha o dom de quebrar o gelo e eu o invejava. Talvez quizesse um pouco disso ao invés desse silêncio todo que brota de mim em algumas situações. Relutante, pego um peão e movo, como se estivesse me movendo naquele tabuado bicolor.

Aquele era só mais um dia qualquer, quente como hoje, em um bus qualquer, lotado de pessoas que iam e vinham. E eu era só mais uma delas, na mesma janela de sempre, com uma pilha de livros e um pacote de Doritos, olhando os outros estudantes que assim como eu voltavam para casa. Esperando que as nuvens enfim ficassem amenas e mostrassem um pouco as estrelas.
Ele subiu dois pontos depois e se sentou no degrau, mesmo com tantos lugares vazios. E olhou para meus pés. Não pude deixar de notar suas mãos, não porque elas fossem magras e frias, nem pela caixa de madeira que vejo diariamente, mas pelas hawaianas quebradas, que se moviam em um balançar frustrado. E o olhar. As vezes o olhar das pessoas tem um poder esmagante.
Pode ser paranoia minha, mas as vezes eu sonho com isso. E sempre acordo me achando um lixo, o que não é completamente mentira.
Tenho pensado nisso. Nessa nossa incapacidade tão promíscua. Volta e meia me pego tentando imaginar como cada um encara o seu pedaço de inutilidade. Entorpecidos na própria hipocrisia. Penso nas pessoas e suas fardas de calça preta apertada e blusa branca, e nos escritórios tediosos. Vendedores, recebedores de contas, motoristas de bus, todos eles me vem a memória agora. E fins de tarde apressados onde um céu muito laranja passa despercebido. Lembro também da senhora simpática que vendia hot dog na porta do colégio da minha infância. Todos eles parecem pequenas formigas construindo um castelo, uns com caras amarradas, outros com sorisos amarelos. Deve ser essa a diferença. A forma como cada um encara as coisas.
-Professora, é verdade que a gente é o que escolhe ser? Agora tenho certeza disso.
Aulas de botância me deixam paranóicas, me fazem lembrar dos projetos que tenho de entregar e provas de cálculo e física experimental. Me dá vontade de pegar a Florisbela e fugir. Vejo tudo tão mesquinho. Marvin me chama de Maria Louca.
Agora quando lembro do menino me lembro também de um livro que li na semana passada, do gânster que mutilava as crianças para que elas pudessem pedir moedas nos sinais ou nos metrôs. Marvin me arrasta para ver um filme. Relutante eu vou. A gente revê Clube da Luta. Tyler me lembra uma parte das pessoas que não fica à mostra. Como nas fotografias que outrora tiro de pessoas na rua, no bus... Tenho agido assim sem querer. Judas, o obscuro tem despetado meu lado obscuro e amargo.

Dessa vez é Marvin que está quase dormindo. já passa de 01:00 pm. Não sei se ele entendeu bem, mas sei que ouviu tudo. Um vira-lata branco passa embaixo da sacada e tenho vontade de lhe fazer um carinho. Gosto desses cães de rua. Sinto que eles gostam de mim também. Levo Marvin para o quarto, vejo o 'Paris era ontem' de Ariano na sua cabeçeira. Lembro da vontade de conhecer Paris. Pego as peças do chess e arrumo na estante. Ainda penso no filme e na nossa luta individual com a outra parte de nós mesmos. Se eu fosse escolher alguém para lutar acho que não saberia quem escolher. Apago a luz e coloco um disco aleatório. Muse canta Supermassive Black Hole. É uma boa música para se dormir pensando.