.
Piloto na av. Getúlio Vargas. Florisbela se comporta bem, mesmo com a chuva de ontem a noite. O dia está quente e úmido, o sol forte em contato com a minha pele branca provoca um efeito estranho. Penso na harmonia... estranho o transito turvo e barulhendo não perturbar meu humor.
Entro na tradicional escola de lingua inglesa, dou minhas aulas como de costume. Interessante como me sinto bem ali, um pouco útil talvez. Na volta quando passo em frente ao prédio da prefeitura têm alguns estudantes fazendo protesto. Paro e fico observando de longe, daria uma bela foto se eu não tivesse esquecido a câmera em casa. Consigo identificar uma colega da universidade. Bina, a revolucionária, com um lado da face coberto por uma tinta branca, destribuindo panfletos e sorrisos no meio de toda aquela multidão. Penso em mim em outros momentos, destribuindo os mesmo panfletos, eu que já não tenho tempo para essas coisas, ou talvez não ache mais que elas funcionem. Me sinto vazia olhando todas aquelas pessoas se dispondo a consertar as coisas, mesmo que do seu jeito torto. Eu que me dispusera a consertar o mundo, a molda-lo, e no entanto estava ali, sentindo o sol como um abraço... Mais tarde eu lembraria daquilo. E da moça da face branca.
Marvin comprou um piano, e me levou para escolher. Ele acha que eu tenho mais 'noção' dessas coisas. Eu que só tive um violão Giannini 1990 e agora minha Les Paul. A vendedora mostrou todos os modelos. Uns com botões, tipo videogame e eu nem sabia que até os pianos já tinham botões. Efeitos da tecnologia, pensei.
- Ah, Maria louca, não entendo você, ora cientista, pesquisando naqueles laboratórios da universidade, discipula de Albert Einstein, do evolucionismo de Darwin, ora reclamando da modernidade, como uma caretona.
- Só acho que pianos não combinam com botões. Qual é Marvin, daqui a pouco vão querer por botões em nós. Estamos sendo adestrados...
A noite quando chego da universidade visto um short que um dia já foi calça e uma camiseta velha do Pink floyd que marvin me deu há alguns anos junto com o ultimo livro do Dan Brown. Caramba, me dei conta de quanto eu curto os livros daquele cara. Marvin também gosta. Ele diz que eu sou a única pessoa do mundo que consegue admirar Shakespeare e Dan Brown ao mesmo tempo. Sento na varanda e respondo alguns e-mails. Enfim consegui o livro que procurava há meses. Judas, o obscuro, de Thomas Henri, o preferido do pai da Ana. Um amigo me mandou o pdf e por enquanto é só isso que posso ter. Quem sabe um dia não cruzo com um exemplar em um sebo qulquer e compro. Ainda não começei a ler mas acho que amarei. Não tenho muito saco para internet por isso logo largo de mão. Continua quente. Como um vapor invadindo a cidade. Queria brisa, mar, areia. Ou pelo menos dormir de janela aberta. Esse mundo mutável e instável me assusta. Sinto vontade de ver as coisas como antes, claro que estou falando da harmonia das coisas. A chuva, o calor, no seu calendário... A floresta em seu lugar. Mas além de sermos estúpidos ocupamos muito espaço. Sinto saudades de Veríssimo, de Pessoa, dos clássicos. Acho que estou ficando paranóica.
Marvin chega mais tarde e se junta a mim. Trás uma coca-cola. Ainda me sinto vazia.
-Vai uma partida de chess ai?
-Claro Marvin.
No céu quase não ha estrelas. Na rua as ultimas pessoas caminham com seus passoas errantes. Um homem se mexe na calçada abaixo na minha janela, o cheiro de embriaguês chega até nós. Lembro da opinião do professor de fisiologia mais cedo sobre as pessoas que apenas sobrecarregam o sistema. Sinto uma coisa estranha. Deve ser raiva. Ele devia ser proibido de dar aulas. Acordo com a voz alterada do Marvin.
- Check mat Jude. Você está ai?
- Jude. As vezes me esqueço que esse é meu nome.
- Pois é Maria louca, em qual dos seus mundos você estava agora?
- Tava pensando no menino das Hawaianas quebradas.
- E um dia você vai me contar que raio de menino é esse?
- Um dia Marv...