quarta-feira, 29 de abril de 2009

Crazy Mary


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Mais um feriado. As universidades param. Ela assiste o jornal. E como sempre não entende toda aquela guerra. E todos aqueles colarinhos brancos em crise enquanto as pessoas se matam por comida. Lembrou do Andarilho anonimo. "E violência, sexo, video-games e coisas japonesas estranhas e incompreensíveis." E feições inocentes.
Ela toca 'guitar' e queima um incenso de jasmim, mas isso não afasta seus pensamentos. E mais tarde quando ela sai para instituição onde faz trabalho social, lá fora os vira-latas magrelos farejam o lixo. E mais adiante a criança magrela também fareja. E a maioria das pessoas não está na rua, porque é feriado e provavelmente têm algo melhor para fazer. Ela veste uma camiseta pintada com o 'Einstein'. E fala sozinha enquanto caminha. Mais tarde ela passa por uma praça e vê crianças amarelas e amedrontadas brincando enquanto os ultimos raios se desfazem. E uma dondoca passeando com seu filho, se desvia do caminho para evitar a cena. Porque eles fazem parte de diferentes 'impérios'. Estranho as pessoas sempre donas da verdade, rotulando tudo. Como ter orgulho disso se somos mesmo uma farça? Uma geração que dança conforme a música deles. Esperando sempre ouvir as mesmas coisas. Pobres marionetes desse sistema podre. Tão estupidos.

"Sonhei que estava voando acima das árvores além das colinas
Avistei a casa da Maria louca
Paredes insuportáveis cobertas de jornais
E Maria superando tudo...Tudo..."
(Crazy Mary - Pearl Jam)

domingo, 19 de abril de 2009

Jude [3]


'A moça que queria morar de frente para o mar.'

As semanas seguintes continuaram chuvosas. Chuvas de abril. Mais uma variação climática. Marvin me acha 'nerd' por associar esses fatos. Ele prefere acreditar que por trás de 'tudo isso' há um pouco de exagero para despertar-nos, que as coisas vão ficar 'bem' depois. Como se proteger em um casulo imaginário. Fingindo que as coisas não existem.
Marvin compartilha comigo o gosto pela chuva. De ficar olhando na minha varanda o 'formigueiro' de guarda-chuvas coloridos que passaram lá em baixo com suas sacolas de papel cheirando a pão fresco.
De sair para fotografar depois da 'calmaria'. Ele todo posudo com a Nikon D70 de estimação e eu sonhando com a Canon 20D que terei um dia. Das corridas apostadas na volta para ver quem se molha menos, que sempre termina no café da esquina com um 'capuccino big' coberto de chantily e várias partidas de 'chess'. Ele acha minhas fotografias 'abstratas'. A chuva. O mar. Os rostos e suas feições. Eu perguntadora.
-Marvin, como faço para focar a 'alma'?
Ele sem saber como responder.
Tenho sentido as coisas retrocedendo. As conversas boas do ônibus na volta da faculdade. O menino das 'hawaianas' quebradas cujo as vezes ainda vejo o olhar. Me fitando. Me esmagando. E a fatia de melão.
Tive um sonho estranho.
Uma chaminé fumaçando em meio ao siêncio. Dentro de uma velha casa, o barulho 'estalante' de lenha queimando. Um cheiro de bolinho de avó que exalava forte enquanto o óleo fervia com o calor das palavras da velha senhora de gorro no pescoço.
-Vó, de que a senhora tem mais saudade? questionava uma garotinha 'inquisidora'.
-Das flores amarelas que eu avistava da varanda quando chovia. E da luz dos 'candeeiros'. Do tempo. Que passa correndo.
-Se for verdade que existe mar quero ter uma varanda bem de frente.
Além do menino, agora esse sonho. Que também não sai da cabeça. Que me transportou á história de 'Merren', do velho que queria ver o mar.
Para variar acordei pensando que deve ser normal sentir falta do que nunca fomos.
Plantei uma árvore nova no quintal. Uma Bignoniaceae. Tabebuia avellanedae.
Tabebuias are my favorites trees.
No escola de 'english' o garoto das lentes embaçadas continua me chamando a atenção. Isolado na ultima cadeira da fila.
Marvin as vezes se isola em seu quarto arrumado para ler Vinicius de Moraes. Eu não gosto muito do Vinicius.
Mas as vezes também me pego nesses momentos 'nostáugicos'. Lendo jornais na ultima carteira, vendo os grandes homens de caráter pequeno...]

"Há um cartaz na parede
Mas ela quer ter certeza
Porque você sabe que às vezes as palavras
têm duplo sentido
Em uma árvore a beira do riacho
Há um rouxinol que canta
Às vezes todos os nossos pensamentos estão errados."
[Stairway to heaven - Led Zeppelin]

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Jude [2]


- Como estás 'decrépita', - comentou o Marvin logo cedo- parece que nem acordou ainda.
A florisbela as vezes custa a 'pegar'. Isso sempre me emputeceu, continua emputecendo e vai emputecer sempre. Principalmente quando chove.
Acordei com o barulho da chuva e o cheiro forte de café. Lenta, desatenta e com 'vontade' de escrever. Meus dedos chegavam a 'bruxulear'.
Duarante a aula de cálculo II minha atenção se prendia no movimento da chuva lá fora e as gotas que perdiam suas formas na janela de vidro ao meu lado. O céu estava azul-acinzentado-fosco. 'Bonito'. Enquanto o professor explicava teoremas de confronto e anulamento. E minha atenção insistia em se voltar para a chuva. Até encontrar um livro de literatura enfanto juvenil, desses de oitenta páginas que a gente lê em uma hora. -Me empresta, pedi a moça de óculos de armação vermelha da carteira da frente. E asism foi-se a manhã. E a cara espantada e o olhar inquisidor da moça quando devolvi o livro. - Já?-
'Ana e Pedro cartas'. Havia um tempão que não lia esse tipo de livro. O último foi 'manhas comuns' quando tinha uns quinze/desesseis anos. Fez lembrar de mim em uma adolescencia remota. Bem mais Pedro que Ana. Acho que tenho envelhecido depressa. Marvin me chama de paranóica por isso, mas eu sinto mesmo que envelheço alguns anos a mais a cada semestre. A responsabilidade bate feito uma tempestade, dessas que não tem por aqui, tipo as de Bahamas. Talvez por isso eu tenha tanta pressa. Tanta coisa ainda para viver. Tantos lugares. Desde as cidadezinhas históricas de Minas a 'gigante' London, tão perto e distantes dos sonhos. Talvez não haja mesmo meio das coisas seguirem junto com o homem.
Adoro 'cartas'. Postais, telegramas, cartões de natal, bilhetes, postit, dicionários de inglês e marcadores de página. Deve ser legal por demais trocar cartas com amigos. E fazer amigos por carta. Depois que inventaram a correspondencia eletrônica e o orkut tudo ficou tão mecânico. Sinto saudades do moço de 'amarelo' que trazia a correspondência na bicicleta, virando a esquina, trazendo consigo uma espectativa boa por aquelas palavras que viajavam milhares de quilômetros, de ver as letrinhas no papel e imaginar o movimento das mãos rabiscando cada letra. Hoje só chegam contas, talão de cheques, fatura de cartão.
Minha mãe ontem veio com uma conversa estranha sobre mudanças. Não entendi muito bem, a velha não tem muito talento com as palavras, mas me fez lembrar aquela vez que veio me dar a noticia do colégio enterno, quando eu tinha oito anos e não sabia nada da vida. E talvez ainda não saiba. Com o Pedro também foi assim. Dei uma carona a um dos meus alunos da nova turma de inglês. Um garotinho loiro de bochechas rosas que me perguntou se eu tinha mãe. O olhar triste e bom dele me deixou meio 'boba'.
Deve ser efeito do livro. Por falar nisso comecei a ler Kim Eduards, 'O guardião de memórias'. Até que é interessante. Estou a procura de 'Judas, o obscuro'. O preferido do pai da Ana. A ana que divide comigo a mesma opinião sobre casamentos e as mesmas preocupações sobre os tempos de 'aids', mudanças climáticas, feriados múltiplos, presidente da república...

"Mude.
Tudo o que você é,
E tudo o que você foi.
Você tem que ser melhor,
Você tem que mudar o mundo.
E usar essa chance para ser ouvido.
Sua hora é agora."
[Butterflies and hurricanes - Muse]

terça-feira, 7 de abril de 2009

Jude


A motocicleta amarela faz um 'barulhão' ao adentrar a rua estreita de paralelepípedo. Joga esse treco velho fora diz o Marvin sempre que chego fazendo-me ruborizar de raiva. Algumas pessoas têm aimais de estimação. Outras colecionam objetos de arte. Eu adotei a Kasinski Cruise 125 que ganhei do meu pai quando fiz quinze anos, numa tentativa frustrada de substituir o cachorro que nuca pude ter devido a alergia da minha irmã. Dentre todas as coisas das quais ele tira 'sarro' a motocicleta e os vinis anos 70 são os que mais me enfurecem, afinal eles não são meros objetos como todo mundo pensa, mas parte da minha história - não que isso seja grande coisa- mas sempre fico muito 'puta' quando isso acontece. E o Marvin adora me ver assim.
Marvin é meu 'primo-irmão'. Daqueles que ora você tem vontade de matar, ora acha que pode ainda vir a precisar dele. É uma quase cópia do 'Ed Kenedy de Marcus Suzak', com muitas diferenças claro! Quando ele tinha nove anos seus pais - consequentemente meus tios - morreram em um acidente de carro. Desde então ele mora conosco aqui no prédio azul de janelas desbotadas, mais precisamente em um quarto excessivamente iluminado bem mais organizado que o meu. Com 19 anos ele estuda publicidade e é fotografo nas horas vagas. Odeio as centenas de fotos que ele costuma tirar escondido. São coisas um tanto perigosas se tratando dele. Mas um primo 'desses' é bem util para fazer 'sandwich', ir ao cinema quando não se tem outras opções e cuidar do jardim - até temos uma sociedade secreta de plantadores de árvores, todos os sábados as nove da manhã.
Bem... voltando ao assunto da moto, a florisbela é tudo o que há. Além de me ouvir quando o Marvin está ocupado ainda me livra de pagar a 'absurdez' de preço do transporte coletivo que essa semana aumentou novamente. Marvin é metido com movimento estudantil, eu até que entrei nessa logo que começei o curso de letras english, mas não é para mim não. Se tem uma coisa que eu sou contra é essa coisa de fica falando falando e parar nisso. Palavras sem ação são tão inúteis.
Não que eu esteja criticando ninguém. Como diz pink floyd 'no sarcasm' e cada um faz o que pode, mas eu tenho outras prioridades agora. Prioridades essas que eu talvez nem entenda direito. Marvin vive criticando isso, isso e várias outras coisas, como por exemplo o meu fanatismo retrocesso pelo Eduard Cullen. Ele diz que quero abraçar o mundo com as pernas. E acha que eu deveria ter nascido britânica. Mas e daí se eu amo inglês e uso all star? Isso não me faz inconsciente do meu papel aqui. Porque será que as pessoas vivem querendo enquadrar todo mundo em um modelo pré-fabricado que não me atrai nem um pouco.
Sou apaixonada por inglês e literatura. Dou aulas para turmas de pre-adolescentes em uma escola de linguas do outro lado da cidade. Eu e a florisbela. Bem mais gratificante que traduzir aquelas longas reuniões de 'caras-amarradas-de-colarinho-branco', isso me dá mais liberdade de ser quem eu sou. A garotada adora as músicas e eu posso usar meus jeans e tênis - detesto ser obrigada a trabalhar de 'farda de dondoca'. Tudo o que eu menos preciso agora é ser alguém com complexo.
Na janela do meu quarto tem uma 'varandinha' com vista para a rua. De lá no final da tarde eu aspiro o calor escaldante antes de ir para a faculdade. Enquanto o 'Jimi' canta (grita?) 'if 6 was 9' as pessoas voltam de seus trabalhos, colarinhos e saltos se misturando, falando de orkut, big brother, reuniões do g20, novela das oito, cigarros... Interessante essa nossa miopia particular e essa capacidade de ignorar as coisas. Quem sabe essa 'parada' de verdade de cada um não seja mais uma mentira que eles enventaram para nos contar? Pobres 'palhaços' enganados.
Minha cabeça as vezes 'gira'. E eu só sei de uma coisa. Essa normalidade toda é muito entediante...

"Conservadores de colarinho branco passam rapidamente pela rua,
Apontando seu dedo de plástico para mim.
Eles esperam que gente como eu caia e morra logo,
Mas eu vou balançar minha bandeira monstruosa, alto, alto.
Balançar, balançar...
Caiam, montanhas, apenas não caiam em mim
Vá em frente, Senhor Homem de Negócios, você não pode se vestir como eu.
Tudo bem, porque eu tenho o meu próprio mundo para observar,
E eu não vou copiar você..."
(If 6 was 9 - Jimi Hendrix)